“Não falamos do Bruno” - A sombra na família (Encanto)

A canção presente na animação “Encanto” foi um grande sucesso. Tornou-se numericamente a música mais reproduzida de toda a Disney. Mas por que essa música teve tanto impacto? Muitos fatores contribuem para essa resposta do público, dentre eles porque essa é uma canção sobre família e sobre a sombra.

É comum desempenharmos papéis no mundo, de acordo com nossas habilidades, interesses, identificações e nossa própria noção de nossa personalidade. Luísa é forte, Isabela encantadora. Esses papéis correspondem a uma pequena parte de quem somos, são nossas personas.

Em contrapartida, a sombra abarca os demais potenciais, negativos e positivos, que não foram integrados às nossas personas e incompatíveis com a atitude consciente.

A sombra se manifesta no psiquismo individual e também de forma coletiva. "Não falamos do Bruno" demonstra principalmente a sombra na dinâmica familiar. Em toda a família, há características mais aceitas e desejadas, e características rejeitadas, de acordo com os valores e a história daquele grupo. Quando algo não é compreendido, gera medo ou pode trazer qualquer alteração à estabilidade da dinâmica tende a gerar um movimento para represar sua expressão.

Esse movimento, que tem o objetivo de preservar a segurança do grupo, nem sempre atinge seu objetivo. Entre suas consequências pode impulsionar o adoecimento do sujeito e também da própria família, a exclusão, a instauração de um clima hostil, de constrangimento, punição e distanciamento dentro do ambiente familiar, em que as pessoas se sentem coagidas ou até mesmo fragmentadas no reconhecimento de sua identidade. Nas teorias que estudam grupos, podemos compreender que o papel do bode expiatório pode carregar projeções de todos os membros de um grupo.

Bruno, com suas visões assusta a família Madrigal que, incapaz de lidar com a ansiedade, o pune e o responsabiliza pelas frustrações vivenciadas. Uma vez que a imagem construída pela família é daquela que ajuda seu povo, Bruno acaba por denunciar que, mesmo apesar do esforço da família Madrigal, nem sempre há controle ou como evitar algumas situações, consequências e eventos naturais, como o clima.

Como é possível então lidar com nossos impulsos sombrios? Como lidar com a agressividade, ciúme, inveja e tantos outros sentimentos considerados negativos? É preciso coragem para encarar e conhecer nossa totalidade, para assim estabelecer um diálogo honesto com nossas necessidades, nossos medos e nossos impulsos. Não podemos ignorar nada que nos compõe enquanto humanos, e ao mesmo tempo devemos ter uma ação responsável para com o meio em que vivemos. Dentro das possibilidades da realidade podemos buscar alternativas para a expressão humana de forma mais criativa e menos destrutiva ao individual e ao coletivo.

Pertencer a uma família é uma forma de aprender sobre adaptação social, sobre as dificuldades da convivência em sociedade, as concessões necessárias e os valores de coletividade. Ao mesmo tempo, a individualidade faz-se necessária para que o indivíduo desenvolva sua identidade e sua autonomia. Esses polos são importantes durante todo o processo de individuação descrito por Jung.

No filme os papéis são flexibilizados, e os personagens podem ampliar sua consciência e sua noção de si mesmos, fortalecendo suas relações de forma mais autêntica e saudável. Através do diálogo sobre as feridas e o medo, a avó pode abrir-se para enxergar sua família, de forma atualizada, compreendendo que a família compreende indivíduos com necessidades e desejos diversos e ao validar suas diferenças potencializa o processo de pertencimento de todos os membros.

O filme ainda demonstra o papel de protagonismo das avós na família na cultura latinoamericana, o que também pode ser visto na animação "Viva, a vida é uma festa" (Coco)

Se possível, assista ao filme Encanto e reflita na saúde da sua família e se ela tem espaço para todos os seus membros. Cuide também da sua saúde emocional e lembre-se que a Arteterapia é um caminho para reconectar-se com sua expressão que muitas vezes foi interrompida pela forma como foi inserido nos processos de adaptação social.

Lembre-se que assim como Mirabel, mesmo que as vezes não seja reconhecido no seu ambiente, você é uma pessoa dotada de potência e de criatividade para intervir e transformar o mundo.



 

Josué Ataide Mendes Lobato – Psicólogo junguiano, Pedagogo e Arteterapeuta.

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