A espiritualidade na arte

Atualizado: Ago 5

Por Fabíola Gaspar


A arte é atemporal, simbólica, perfeita em sua manifestação (não no que tange à dimensão estética apenas) e abrangente em sua capacidade de “falar” sem palavras, incorporando mensagens abrigadas na alma. Os símbolos podem ser revelados de diversas maneiras, inclusive através da arte. Eles também mostram a dimensão espiritual, ou seja, que tudo parte de algo infinitamente maior e mais complexo que a individualidade. Alessandrini ressalta:


A linguagem da arte é a imagem, símbolo do mundo sentido e vivenciado sensorialmente: é sinal e som, é cheiro e sabor, é toque. É mágica pura que torna consciente a totalidade da dimensão espiritual do viver o Ser em contato com a Natureza. É ritmo que, em suas diferentes manifestações, constrói um corpo de conhecimento: imagem arquetípica e simbolicamente conectada com a Natureza da alma.1


No meio de tantas crises, sejam existenciais, de ideias e ideais, seja na dificuldade de relacionamento familiar ou no meio social, seja profissional ou financeira, o ser humano busca de diferentes maneiras encontrar uma saída para amenizar seu desconforto. Tommasi realça que


[...] a busca por novas metodologias para o tratamento da saúde física, mental e moral conduz profissionais de vários setores e segmentos para o reencontro com a expressão artística. Por meio das linguagens da arte a psique individual e coletiva busca o equilíbrio e a harmonia para restabelecer o religare.2


A arte trabalha no sentido de não permitir que o elemento diabólico, aquilo que se divide e fragmenta, seja predominante, pois organiza a mente, equilibrando-a com o elemento simbólico, aquele que une e religa. Ver a produção artística de uma pessoa é poder ler esse indivíduo, já que através da arte o indivíduo retrata o que sente, pensa, acredita, acolhe, teme, indo além da simples aparência do olhar ingênuo, na manifestação do sagrado e no emergir do que há de mais saudável na alma, naquele momento e contexto. Mesmo que apareçam elementos pouco harmônicos, aparentemente, o que se dá no momento é a tentativa de exatidão e equilíbrio, que muitas vezes encontra também seu caminho através do caótico, do elemento organizador e finalmente da organização cada vez mais aparente. O segredo está no fato de que tudo que se pode saber sobre o ser humano vem da mesma fonte, que é sua mente capaz de alcançar ao mesmo tempo o que é aparentemente apenas natural e também o que é aparentemente apenas sobrenatural (espiritualidade). Da conjunção entre esses dois elementos (natural e sobrenatural) surgiu a arte.


Arte, ciência e espiritualidade iniciaram juntas, quase que sobrepostas, na trajetória do conhecimento humano. Mas, com o passar dos séculos, ocorreu o desenvolvimento individual dessas áreas, ocasionando momentos de ruptura, reencontros e novas rupturas, de forma cíclica e ascendente. Arte, ciência e espiritualidade ora caminham juntas, ora em paralelo, mas sempre se encontram e se entrelaçam, porque fazem parte do existir humano.3


1 ALLESSANDRINI, Cristina Dias. A Criatividade na Educação para a Paz. Arte-Terapia, São Paulo, v. 2, n. 2, 1998. p. 33.

2 TOMMASI, Sonia Bufarah. Introdução: a transcendência da arte, ciência e espiritualidade. In: TOMMASI, Sonia Bufarah (Org.). Pensando a Arteterapia com arte, ciência e espiritualidade. São Paulo: Vetor, 2012. p. 17.

3 TOMMASI, 2012, p. 11.

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