Nise da Silveira: arte, liberdade e revolução no cuidado em saúde mental
- NAPE - Núcleo de Arte e Educação

- 23 de fev.
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Quem foi Nise da Silveira?
Nise da Silveira (1905–1999) foi uma médica psiquiatra brasileira que transformou profundamente o campo da saúde mental ao introduzir a arte, a afetividade e a livre expressão como caminhos terapêuticos. Reconhecida internacionalmente, revolucionou práticas psiquiátricas no Brasil ao se posicionar contra procedimentos agressivos como eletrochoque, coma insulínico, insulinoterapia e lobotomia. Em vez da violência institucional, defendia o vínculo, o cuidado e o respeito à subjetividade.
Em seus estudos sobre esquizofrenia, manteve correspondência com Carl Gustav Jung a partir de 1954, estabelecendo um diálogo decisivo entre a prática clínica brasileira e a psicologia analítica. Entre as personalidades que trabalharam ao seu lado está Dona Ivone Lara, antes de se tornar referência na música brasileira.
Formação, prisão e construção de pensamento
Natural de Maceió, formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, sendo a única mulher entre 157 homens de sua turma e uma das primeiras mulheres a se graduar em Medicina no país. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1927 e, nos anos 1930, envolveu-se com o Partido Comunista Brasileiro.
Durante o governo de Getúlio Vargas, foi presa entre 1936 e 1937 sob acusação de subversão. No presídio Frei Caneca, conviveu com figuras como Graciliano Ramos, que posteriormente a retrataria em Memórias do Cárcere. Esse período marcou profundamente sua concepção de liberdade e influenciou seu olhar sobre a loucura como experiência humana que exige escuta e compreensão, não repressão.
Arte como prática terapêutica
Reintegrada ao serviço público em 1944, passou a atuar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Diante da predominância de métodos violentos, recusou-se a aplicá-los e foi transferida para o setor de terapia ocupacional. Em 1946, fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional, substituindo tarefas mecânicas por ateliês de pintura e modelagem. Ali, pacientes passaram a produzir obras que revelavam universos simbólicos complexos, desafiando visões reducionistas da doença mental.
Em 1952, criou o Museu de Imagens do Inconsciente, instituição dedicada à preservação e ao estudo dessas produções. O museu consolidou-se como espaço interdisciplinar de pesquisa, articulando clínica, arte, psicologia, antropologia e educação. Parte de seu acervo foi reconhecida pelo IPHAN e o arquivo pessoal da médica integra o Programa Memória do Mundo da UNESCO.
Nise também foi pioneira ao incorporar animais como “coterapeutas”, percebendo que o cuidado e o vínculo afetivo promoviam reorganizações psíquicas significativas. Fundou ainda a Casa das Palmeiras, em 1956, clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes psiquiátricos, propondo um espaço intermediário entre hospital e sociedade.
Legado e diálogo com o NAPE
O legado de Nise da Silveira permanece atual ao afirmar que arte, pesquisa e educação são dimensões inseparáveis quando se trata de compreender o ser humano. Sua prática demonstra que a produção simbólica não é apenas expressão estética, mas também ferramenta de elaboração, reconstrução e reintegração social.
É nesse horizonte que o trabalho do NAPE – Núcleo de Arte, Pesquisa e Educação se reconhece e se fortalece. Ao articular práticas artísticas, investigação crítica e formação, o NAPE reafirma a potência da arte como campo de conhecimento, cuidado e transformação, mantendo viva a compreensão de que educar também é criar espaços de escuta, sensibilidade e liberdade.




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