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A árvore e a individuação


Terra, água, ar e fogo, como elementos físicos, palpáveis, da natureza, estão todos interligados em uma das mais impressionantes manifestações concretas de vida a que temos conhecimento: a árvore, esse ser vivo constituído de raízes, tronco, galhos, folhas, flores, frutos e sementes, tão importante que nem nos damos conta de sua presença nos diferentes espaços da natureza. Algumas vezes ela está em nosso quintal ou jardim, na calçada, no canteiro central das avenidas, nos pomares, nas matas e nas florestas. Está sempre ali – ou nem sempre – e nem nos damos conta disso. Ela faz parte da paisagem e nos habituamos tanto à sua presença que nem lhe prestamos a merecida e necessária reverência por tudo aquilo que nos proporciona como condição essencial à nossa existência.

 

Pesquisas recentes indicam que existem três trilhões de árvores por todos os continentes, constituintes de cerca de 74 mil espécies diferentes. Os especialistas indicam que os 8 bilhões de habitantes do planeta exigiriam mais 1,5 trilhão de diferentes espécies, devidamente distribuídos, para garantir adequadas condições de vida aos seres viventes, sem contar, é claro, com outras situações como o tratamento dos esgotos e redução da emissão dos gases que provocam o efeito estufa, por exemplo. Mas, por garantirem a troca gás carbônico x oxigênio, essa quantidade já seria um bom (re) começo.

 

Desse total de 74 mil espécies, as projeções indicam que cerca de 11 mil estejam em solo brasileiro, um número de proporções continentais, mas todos sabemos que o desmatamento reduziu drasticamente esse número ao longo do último século, tanto pelo avanço das práticas agrícolas para dentro do território nacional, como pelo crescimento dos núcleos urbanos, reduzindo cada vez mais as últimas reservas de mata nativa. Os desastres climáticos constituem apenas uma das consequências desse ato (des) humano. Se não reconhecemos nem mesmo a importância física da árvore em nosso cotidiano, que dirá da simbologia que ela carrega em si desde os tempos mais primevos, pontuando o cotidiano de nossos ancestrais em ritmo de respeito e reverência a esse ser tão essencial à vida.

 

Foi pensando nessa simbologia que propusemos à turma 8 de Campinas do Curso de Pós-Graduação em Arteterapia NAPE/FAVI a adoção da simbologia da árvore como eixo central do estágio obrigatório para conclusão de curso. Nosso objetivo geral era o de trabalhar diferentes simbologias pertinentes, investigando como diferentes públicos se conectariam com essa raiz essencial. Mas o que podemos identificar sobre esse tema no campo da simbologia? Em Chevalier & Gheerbrant (2018, p. 84), encontramos que:

 

“A árvore põe em comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo, através de suas raízes sempre a explorar as profundezas onde se enterram; a superfície da terra, através do seu tronco e de seus galhos inferiores; as alturas, por meio de seus galhos superiores e de seu cimo, atraídos pela luz do céu... reúne todos os elementos: a água circula por sua seiva, a terra integra-se a seu corpo através das raízes, o ar lhe nutre as folhas e dela brota o fogo quando se esfregam seus galhos um ao outro”.

 

Denota-se, portanto, que a árvore abarca os quatro elementos da natureza: terra, água, ar e fogo, pois suas raízes fincam-se em diferentes profundidades no solo, onde buscam nutrientes para crescer; por seu tronco e galhos circulam esses nutrientes e a água, essencial para o seu crescimento; suas folhas são acariciadas pelo vento, que lhe alimenta do gás carbônico expelido pelos seres humanos, enquanto dela recebem o oxigênio; e o fogo vem dos raios solares que garantem a temperatura necessária ao seu estoque dos elementos necessários para atravessar as diferentes temperaturas ao longo das quatro estações, o que é muito mais visível nas regiões de clima frio e gelado. São muitas as referências ao simbolismo da árvore. Sua presença sempre majestosa, mesmo diante das mais terríveis intempéries, está sempre a indicar um processo de evolução, visível aos olhos para que o humano ser nela se espelhe e busque esse aperfeiçoamento contínuo de sua existência. A árvore está sempre em evolução, sempre em ascensão vertical, subindo em direção ao céu. O fato de suas raízes crescerem em direção ao fundo do solo, e seus galhos crescerem em direção ao céu, foram simbolizados por muitos povos como esse processo de autoconhecimento, ou seja, a saída dos planos inferiores para os planos superiores, em busca do eterno, do sagrado, do divino.

 

Diferentes mitologias tratam dessa percepção simbólica e uma das mais estruturadas em termos de pensamento é a da “árvore da vida” da Cabala, que a representa em diferentes níveis evolutivos, desde o chamado plano material da existência terrena, até o chamado nível das emanações, o mundo etérico, associado ao eu superior, ao espírito divino.

 

Da Índia vem uma outra leitura desse símbolo e que tem sido reconhecida no mundo todo por representar um arquétipo facilmente identificável em diferentes culturas. Baseado em fatos reais, dá conta de que o Príncipe Sidharta Gautama, do Reino de Sakya, depois de abandonar o palácio dos seus pais para conhecer o mundo além dos muros reais, deparou-se com inúmeras formas de sofrimento humano, o que ensejou uma reflexão sobre as diferenças entre os mundos da realeza e da população que ele começava a descobrir, o que o levou a questionar por quais motivos isso acontecia.

 

Sidharta Gautama empreende então uma viagem por diferentes regiões do seu país, sempre em busca de respostas, procurando nos mais diferentes ascetas (detentores do conhecimento) uma resposta que o satisfizesse. Passou por muitas manifestações religiosas em seu país, assim como por muitas privações, incluindo um longo jejum que havia intuído ser capaz de lhe dar as respostas que procurava. E o insight mais importante não foi exatamente aquele que esperava, mas que, se continuasse na privação dos alimentos, não alcançaria seu objetivo. Abandona então o jejum e sai em peregrinação, até que se depara com uma árvore sobre a qual se coloca a meditar, onde, enfim, encontra aquilo que veio a ser chamado mais tarde de a “iluminação”. Em contato com seu mais profundo eu, sob uma árvore, mais tarde chamada “árvore bodhi”, encontra todas as respostas e sai pelo país pregando as razões do nascer-viver-morrer-nascer. Seus ensinamentos continuaram a ser transmitidos de forma oral e mais de 300 anos após sua morte seus sucessores os escreveram para que não se perdessem. Foram compilados dezenas de ensinamentos, chamados de sutras, que deram origem a um novo movimento religioso-filosófico na Índia, o Budismo, que significa exatamente “iluminação”, ou seja, atingir o estado de Buda é chegar aos céus, ao topo da árvore.

 

Há muitas outras simbologias ligadas à arvore e talvez uma das mais conhecidas no mundo ocidental seja a da árvore de Natal, que marca o advento de Cristo, um dos mais importantes símbolos do catolicismo, mas também cultuada em outras religiões. Normalmente essa árvore é montada nas casas, no mês de dezembro, sobre a espécie pinheiro (natural ou artificial), pois, em algumas tradições, o pinheiro é símbolo da vida, justamente por ser uma das poucas espécies a se manter verde durante as quatro estações, mesmo no inverno. Embora ligada ao cristianismo, a árvore de Natal tem origem em festas pagãs muito antigas, sendo associada à prosperidade e fertilidade, justamente pelos seus ciclos de produção de folhas e frutos, que se renovam a cada estação.

 

Em diferentes culturas (lembrando que um mito nasce em determinado contexto sócio-cultural), diferentes espécies de árvore vão encontrando diferentes representações sociais para esses povos.

 

Além do pinheiro, como símbolo da árvore de Natal, recuperamos alguns desses exemplos: bambu - equilíbrio e crescimento; carvalho – resistência e sabedoria; cedro – fidelidade; cerejeira – sabedoria e amor; figueira – imortalidade e sabedoria; macieira – amor e eternidade, mas também o fruto proibido de Adão e Eva; salgueiro – sorte e proteção; oliveira – esplendor e vitória, representados na deusa Atena.

 

Outra simbologia que faz parte do dia a dia de muitas pessoas é a árvore genealógica, ou seja, um gráfico que representa as origens de uma família por meio da identificação dos antepassados. Essa atividade, no campo da Arteterapia, como poderá ser observado nos relatos de alguns dos ensaios deste livro, permite não apenas a localização de tios e avós, mas a compreensão, por meio desses personagens, do quanto cada sujeito carrega dos seus muitos ascendentes, o que também se constitui em um processo compreensivo de autoconhecimento e individuação.

 

Há muitos outros significados simbólicos para a árvore, descritos em muitas publicações exclusivas para esse fim. Como símbolo do Sagrado em diferentes culturas, ela representa aquilo que transcende, que supera as mais refinadas compreensões no campo do conhecimento racional, para ligar-se a um deus ou à estrutura do mundo e do Universo. Jung a descreve como o caminho e o crescimento para aquilo que não pode ser modificado, transformado, e, portanto, é eterno. Em outra passagem, Jung, pai da Psicologia Analítica que embasa a Arteterapia, nos lembra que, para tocar os céus por meio de suas folhas, a árvore precisa antes ter raízes muito profundas para tocar os infernos. Podemos compreender que, para iniciar o caminho da individuação, precisamos antes descer no mais profundo de nosso ser, buscar nas raízes mais profundas, como ele próprio fez e relata em suas publicações, para nos depararmos e compreendermos as nossas sombras, aquilo que não gostamos, aquilo que nos incomoda, para mediante a integração dos opostos, encontrarmos os mais belos tesouros, a verdadeira alquimia, a cura de nossa alma.

 

A relação simbólica da árvore com o humano ser pode ser abordada não apenas pela botânica e pela mitologia, mas também pela ciência, que nos últimos anos tem ido além de entendê-la apenas fisicamente. O engenheiro florestal alemão, Peter Wohlleben, traz uma abordagem inovadora em seu livro “A vida secreta das árvores” (Sextante, 2017), com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e também disponível na forma de documentário. Wohlleben defende que a relação ser humano-árvore têm em comum muito mais do que se conseguiu identificar até agora, inclusive que elas são seres sociais e que se comunicam entre si, por meio de suas raízes. O engenheiro florestal diz que elas se comunicam entre si, mantém relacionamentos, sustentam umas às outras, formam famílias e têm memória.

 

Essas percepções podem ser vistas isoladamente, como algo muito novo, estranho para alguns, mas, se relacionadas com os aspectos mitológicos que nossos antepassados desenvolveram ao longo dos séculos, é possível perceber alguns encontros muito interessantes, quando analisados sob uma perspectiva arteterapêutica. A começar pela relação básica dos aspectos físicos: raízes – pés; tronco – tronco; galhos – membros; copa – cabeça; frutos – filhos, para ficar nos mais aparentes e evidentes. Então, se em uma sessão de Arteterapia convidamos uma pessoa a desenhar, pintar ou modelar uma árvore, ela pode, inconscientemente, projetar a si mesma na sua produção plástica expressiva e ser convidada pelo arteterapeuta a estabelecer relações entre si e o objeto simbolizado. E dentro desse processo ser animada, por exemplo, a compreender o quanto suas raízes se estendem pelo solo e pela cartografia da sua vida, superando, eventualmente, algumas de suas feridas e sombras até então inconscientes.

 

Este é apenas um exemplo do muito que pode ser trabalhado com a simbologia da árvore em Arteterapia, num leque imenso de possibilidades, talvez tantos quanto sejam as espécies existentes na natureza.


Referências

CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2018.


WOHLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores. Rio de Janeiro: Sextante, 2017

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