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Seguindo o fluxo da vida, tecemos os caminhos de que precisamos


É uma verdade tão clara como as águas dos mananciais que brotam intocados do ventre da terra o fato de que não há um bom guia de viagem que não se exponha às mesmas paisagens a que se submetem os peregrinos. A pandemia estava para todos, mas para cada um, de um modo diferente. Os peregrinos a quem me propus conduzir traziam o desafio do autoconhecimento e da evocação das forças internas para construir a ponte da resiliência com as quais se atravessa as fraturas no viver. E, assim, alcançar novos territórios de enfrentamento das dores da vida e da morte — onde o estímulo e o aprimoramento da capacidade criativa são o adubo e a enxada na seara dos que cultivam soluções inventivas e ressignificações do vivido para nutrir o velho sábio dentro de cada um.


Quanto a mim, lançava-me ao desafio de encaminhar a abertura de trilhas em terrenos subjetivos, por chãos de mundos diferentes do meu – e, em uma jornada pela floresta de símbolos internos, mesmo na distância do virtual, provocar a reverberação de sentido para evocar os gêiseres do espírito humano: fervilhantes potências na grande caldeira da individuação (SANTOS, 2008; STEIN, 2006). Para todos nós, crepitavam as chamas desafiadoras do encontro com as próprias resistências e o teste de pôr os pés da alma a pisar sobre um solo ineditamente isento da concretude da presença física. Acordamos percorrer a floresta das árvores da vida ao longo dos diferentes tempos e lugares da História. Encontramo-nos com diversos temas enraizados nos terrenos do coração e também aqueles que matizam os brotos ansiados. Pela terra, pelo ar, pelas águas e pelo fogo, realizamos a variedade de atividades necessárias ao Peregrino em sua busca: respiração, andança, mergulho, nutrição, sono, traçados, entrelaçamentos, construções. E assim percorremos pela pintura, pelo desenho, colagem, modelagem, narração... Mas em tantos caminhos expressivos, em nossa experiência nenhum reverberou tão profunda e especialmente aos andarilhos da teia virtual quanto aqueles conteúdos urdidos nas atividades têxteis. Em território tão inédito e hodierno como a Arteterapia online, justamente uma atividade da ancestralidade neolítica revelou a potência de uma anatomia primordial na tessitura de tudo quanto vem depois.

Aos meus peregrinos, as atividades relacionadas à tecelagem foram aquelas unânimes na ludicidade, no deleite, na entrega, no apaziguamento, na motivação e no borbotar de insights, independentemente do senso de se ter ou não habilidade para a prática. Quanto a mim, ficou como se fosse o aroma de uma exalação alquímica a manifestação uma ideia de que, por algum motivo que não seja puramente mágico, as atividades, quanto mais se aproximam em essência e aparência da natureza de práticas ancestrais, mais poderosamente dão vazão aos fenômenos originais da psique. E vão, assim, encaminhando naturalmente uma vivência profunda e direta com as imagens internas, sem interferências egóicas: sem resistências, sem descrições, rodeios ou justificativas. Conectamo-nos com o borbulhar do caldeirão interno para simples e puramente vivenciarmos as imagens que se vão formando. Livres dos trilhos cronológicos ou dos cercados culturais, adentramos os territórios onde nossa alma se encontra e se manifesta, fazendo-se o que é: Alma (SANTOS & CHAGAS, 2018). Assim, fomos quatro almas em conversações terapêuticas e diálogo interno através do que fomos tecendo e urdindo pensamentos, sensações, sentimentos e intuições.

Tais são minhas percepções e meu crescente interesse quanto às experiências arteterapêuticas baseadas em práticas ancestrais — nesta jornada através das artes têxteis. Há algo de fascinante no pensamento de que o retorno ao solo arraigado desde as eras primevas seja um recurso oportuno em situações especialmente hodiernas e/ou desafiadoras. Porque assim parece ser quanto à evocação de manifestações profundas através de práticas antiquíssimas, de ressonância arquetípica, tal como experimentamos na presente experiência.

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