A complexidade da criatividade


Um dos requisitos básicos para se trabalhar com a arte e as expressões artísticas variadas é a criatividade. Nesses trabalhos, é imprescindível deixar a criatividade fluir, uma tarefa que ultimamente não é incentivada pela nossa cultura. A cultura ocidental tem privilegiado a racionalidade. Entretanto, sabem-se quais os benefícios de se trabalhar com as mãos, com o corpo e com a voz. Essas atividades são restauradoras, prazerosas, revigorantes e trazem equilíbrio, numa sociedade moderna, atribulada, “doente” e superficial do ser humano contemporâneo.

Diversos autores e estudiosos pesquisaram profundamente a criatividade e se ocuparam com as seguintes questões: Como surge a criatividade? Qual o conceito? Como pode ser definida? Quais as condições necessárias para despertá-la, incentivá-la e desenvolvê-la? Como ampliar e potencializar a criatividade? Como e porque a criatividade se expressa de maneiras diferentes nas diferentes pessoas? A criatividade é alvo de estudo das mais diversas áreas do conhecimento humano e científico. Martinez define que há mais de 400 definições para Criatividade apenas no campo da Psicologia, além da utilização de palavras com significados similares, como produtividade, pensamento criativo, pensamento produtivo, originalidade, inventividade, descoberta e inteligência”. Diversos autores vinculam o início da criatividade com os desenhos rupestres, que retratavam os fatos do dia a dia, os pensamentos e sentimentos daquela época, iniciando assim um processo criativo sempre empenhado na busca de resposta ou de soluções para os problemas cotidianos e para a sua própria existência. Janson amplia afirmando que

[...] só o ser humano é capaz de usar a imaginação para contar histórias ou pintar. A necessidade de fazer arte é exclusivamente humana. Nenhum outro animal jamais desenhou espontaneamente uma imagem reconhecível como tal. Não nos resta dúvidas, por um outro lado, de que o ser humano possui uma faculdade estética. Aos cinco anos, toda criança normal já desenhou uma cara redonda. A capacidade de criar arte é um dos traços distintivos do ser humano, que o separa de todas as outras criaturas como um abismo intransponível.

Por sua vez, Ostrower relaciona o criar com o viver humano:

Consideramos a criatividade um potencial inerente ao homem, e a realização desse potencial uma de suas necessidades. As potencialidades e os processos criativos não se restringem, porém à arte. Em nossa época, as artes são vistas como área privilegiada do fazer humano, onde ao indivíduo parece facultada uma liberdade de ação em amplitude emocional e intelectual inexistente nos outros campos de atividade humana, e unicamente o trabalho artístico é qualificado de criativo. Não nos parece correta essa visão de criatividade. O criar só pode ser visto num sentido global, como um agir integrado em um viver humano. De fato, criar e viver se interligam.

Acreditando que a arte é o combustível da arteterapia, comungamos que o criar não deve ser vinculado somente com o fazer artístico, mas criar é a pura manifestação da vida, da nossa própria existência. E como diz Chiesa, “a vivência criativa resgata a emoção no encontro da pessoa consigo mesma atualizando o potencial criativo nos níveis intrapessoal, interpessoal, ecológico e espiritual”. Com isso, percebe-se a complexidade dos estudos nessa área e que provavelmente não se esgotarão tão cedo. Um dos aspectos que destacamos nesse estudo é a criatividade como fonte de criação, como forma de expressão, que promove o desenvolvimento do indivíduo.


REFERÊNCIAS

CHIESA, R. C. O diálogo com o barro: o encontro com o criativo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

JANSON, H. W. História geral da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

MARTÍNEZ, A. M. Criatividade, personalidade e educação. Campinas: Papirus, 1997.

OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.


Texto por Fabíola Gaspar- Psicóloga, Arteterapeuta e Coordenadora Técnica do NAPE

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