Arte como Phármakon

Phármakon é uma palavra grega que aponta para uma substância que tanto pode ser remédio ou veneno, dependendo do conhecimento de quem a ministra, da dose e das condições em que isso é feito.


No Brasil, já na década de 1940, um trabalho pioneiro no campo da saúde mental foi implementado pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira, no Rio de Janeiro. As atividades de arteterapia propostas pela médica tinham como objetivo promover a expressão dos sentimentos do paciente por meio de oficinas de música, pintura, dança e trabalhos manuais, além de jogos e atividades recreativas.


Naquele momento, já esboçava um ensaio para o movimento que caminhava para um novo paradigma no campo da saúde mental, mas que apenas despontaria na década de 1980, com a reforma psiquiátrica. Nesse contexto, surgem as terapias alternativas, ou oficinas terapêuticas, em oposição ao modelo clássico de atendimento como única forma de cuidado. Entende-se por oficinas terapêuticas as atividades desenvolvidas com um grupo de pessoas, sob a orientação de profissionais da saúde, considerando a demanda dos usuários do serviço, bem como a capacitação técnica do facilitador das oficinas.


Lima (2004) aponta que é possível pensar, a partir da implementação dessas práticas, em uma clínica inovadora na sua forma de atuação, isto é, onde é possível abrir espaço para as questões subjetivas do paciente, de forma a qualificar as potencialidades do indivíduo, para que ele possa enfrentar suas dificuldades e modificar seu cotidiano de modo a favorecedor a si próprio.


Fonseca et al. (2006) afirmam que a intervenção feita com o uso da música nos hospitais pode ter efeitos positivos em diversos sentidos. Sendo assim, seu uso poderia modificar o ambiente terapêutico, tornando-o mais acolhedor, assim como na relação entre os profissionais da instituição com os pacientes, propiciando uma forma mais humanizada de atendimento. Isso modificaria a atitude do próprio paciente perante seu processo de reestruturação, de modo a estabelecer um vínculo de confiança com a equipe, para que então possa ocorrer uma relação diferente da clássica. Assim, a música aparece também como um instrumento muito relevante para a atuação dos profissionais de atenção à saúde do indivíduo, tendo em vista que o seu uso proporciona a abertura e o contato com os pacientes.


Neste caso, a música e a dança proporcionavam outra via de expressão para os seus conflitos. Esse aspecto foi um ponto importante deste trabalho, pois a música, como phármakon, não pode ser universalizada; há de se pensar o tipo de phármakon para que público e em que dose, está aí a importância do preparo e o papel do profissional que acompanhará.


A música, dança e outras práticas expressivas podem ser compreendidas como phármakons. Deste modo, concluímos que o olhar cuidadoso e humanizado para o universo subjetivo das pessoas se mostra potente. O que difere veneno de remédio é a dose que se aplica e acrescento também, quem prescreve.



 

Texto retirado da apostila Psicopatologia do professor Régis Costa no curso de Pós Graduação de Arteterapia do NAPE.


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